Poema 31 do Tao Te Ching

Armas, por mais excelentes, são instrumentos nefastos,
Que o homem correto despreza.
Quem conhece o Tao
Não se serve delas.
O homem nobre, em tempo de paz,
Só serve da benevolência;
Só, na guerra, recorre à violência.
Todas as armas são calamidades,
De que o homem correto não faz uso.
Só quando obrigado, as usa,
E mesmo na luta forçada,
A paz e o sossego lhe são supremos.
Quando vencedor, não se alegra.
Quem pode ter gozo em massacres humanos?
Quem se alegra com guerras homicidas,
Não realiza o destino da vida.
Em tempos bons, apreciamos a justiça;
Em tempos maus, recorremos ao "direito"
Sabedoria é paz e amor.
Estultícia é ódio e guerra,
A ilusão do "direito" é do ego,
A verdade da justiça é do Eu.
Ilusão e direito geram violência.
Verdade e justiça geram benevolência.

Nota voltando para casa depois de um dia no Krukutu


O paradoxo da existência é um milagre. Como explicar o inexplicável? Não seria mais simples se nada existisse, se O Nada existisse? Ou será O Nada algo mais complexo do que a própria existência, assim como o não-agir é com o agir? Pois não-agir é também agir. Mesmo os mais sábios, aqueles que conhecem segredos antigos e perigosos, que ignoram o frio e a fome, o cansaço e a sede, o apego e a frustração; mesmo eles, existem e agem. Posto que existimos, não há volta, O Nada só pode ser o outro lado da existência. O Nada está lá fora, em meio ao mistério indecifrável das estrelas, a imensidão incomensurável dos átomos, a ilusão infinita do tempo, a transcendência das mentes, os paradoxos que regem o mundo. Morrer é viver. Viver é morrer.

Guilherme de Almeida / Charles Baudelaire

O albatroz 

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.



L'albatros 

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher
I

Não quero o amor banal
O amor de carne e sêmen
O amor das palavras bonitas
Submisso, derrotado, medroso
Solitário.

II

O amor é irmão da tragédia
E só começa a se conhecer
Pelo sofrimento
Depois de muito sofrer, percebo isso
Amo-a tanto que sofro

III

Num dia de sol e silêncio
O sangue escorre de meus braços
Não se pode confiar em ninguém
O amor bate na aorta
E o amor é tudo que importa

São Paulo
circa 2005

Assassinato

Acordo agitado
no meio da noite.
A mulher que comigo dorme
não sabe de nada.

A cama está suja.
É preciso limpá-la
antes que ela perceba.

Me pergunto:
Terei mesmo feito isso?
Sou um assassino?

Pode ser só um sonho recorrente
essa lembrança que tento esquecer
mas que continua voltando
que se esconde sabe-se lá em que cantos obscuros de minha mente.

Matei alguém.
Matei uma pessoa.

Escondi todas as provas,
joguei o corpo numa boca de lobo,
cobri meticulosamente meu rastro,
emparedei até mesmo as razões para que não atrapalhem minha loucura.

Ninguém conhecia a vítima.
Não tinha parentes ou amigos
ou inimigos.
Creio que era uma mulher
como essa que dorme
talvez uma mãe.
Sou mil vezes culpado.
Por matá-la, por não amá-la,
por nem sequer saber quem era
reduzi-la a uma sombra no canto do espelho
uma lágrima sufocada
um poema que ninguém lerá

São Paulo / Macapá
Março de 2016

procuro um sorriso
um semblante sereno
algo para maquiar a inexpressividade

viro de lado
me escondo
não quero que vejas que não consigo chorar

São Paulo
23 de dezembro de 2015


comedido

"um pouco" é como digo "muito"
olhar é meu modo de conversar
contemplar as árvores
os pássaros
não-agir

navego em águas profundas
saber demais é perigoso

Pedra Branca / Kraholândia
Agosto de 2015