Guilherme de Almeida / Charles Baudelaire

O albatroz 

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.



L'albatros 

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher
I

Não quero o amor banal
O amor de carne e sêmen
O amor das palavras bonitas
Submisso, derrotado, medroso
Solitário.

II

O amor é irmão da tragédia
E só começa a se conhecer
Pelo sofrimento
Depois de muito sofrer, percebo isso
Amo-a tanto que sofro

III

Num dia de sol e silêncio
O sangue escorre de meus braços
Não se pode confiar em ninguém
O amor bate na aorta
E o amor é tudo que importa

São Paulo
circa 2005

Assassinato

Acordo agitado
no meio da noite.
A mulher que comigo dorme
não sabe de nada.

A cama está suja.
É preciso limpá-la
antes que ela perceba.

Me pergunto:
Terei mesmo feito isso?
Sou um assassino?

Pode ser só um sonho recorrente
essa lembrança que tento esquecer
mas que continua voltando
que se esconde sabe-se lá em que cantos obscuros de minha mente.

Matei alguém.
Matei uma pessoa.

Escondi todas as provas,
joguei o corpo numa boca de lobo,
cobri meticulosamente meu rastro,
emparedei até mesmo as razões para que não atrapalhem minha loucura.

Ninguém conhecia a vítima.
Não tinha parentes ou amigos
ou inimigos.
Creio que era uma mulher
como essa que dorme
talvez uma mãe.
Sou mil vezes culpado.
Por matá-la, por não amá-la,
por nem sequer saber quem era
reduzi-la a uma sombra no canto do espelho
uma lágrima sufocada
um poema que ninguém lerá

São Paulo / Macapá
Março de 2016

procuro um sorriso
um semblante sereno
algo para maquiar a inexpressividade

viro de lado
me escondo
não quero que vejas que não consigo chorar

São Paulo
23 de dezembro de 2015


comedido

"um pouco" é como digo "muito"
olhar é meu modo de conversar
contemplar as árvores
os pássaros
não-agir

navego em águas profundas
saber demais é perigoso

Pedra Branca / Kraholândia
Agosto de 2015

Chamado

Escuto um chamado
             ninguém responde.
O eco de um chamado
que se ergue das areias
             arara em chamas
lutando para morrer e assim
poder nascer.

Um chamado grave
que não tem fim
e se perde nos ruídos
nas ruínas
na sombra de um homem
seus cabelos sujos que
        ainda sabe chorar.

Ouçam também esse canto cego
ritmado
que resiste e recomeça com
o amanhecer
que corre como o vento
e não sabe
parar.

Escutem esse chamado
lento como as árvores
          cascas rachando
                flautas soando
Escutem esse chamado grave
quem o responderá?

Pedra Branca / Kraholândia
Agosto de 2015

Arte do amor

Falar de sexo
Homens gostosos
Mulheres bonitas
boceta, lascívia
SEXO
Consumir-se

Línguas e unhas
dentes e facas
falar, falar
falo
imagino
calo
Mais Sexo

São Paulo
 29 de janeiro de 2015